Nívia Tironi

Colunista fixa do RAS. Divide a bancada de Podcast nos assuntos : Educação, psicologia, desenvolvimento e família.

@niviatironi.psi

Nívia Tironi, mãe da Júlia. Sou Psicóloga pela PUC Minas e professora de História da rede pública de Betim (MG).  Coautora do Ebook  Ser e Florescer: Inteligência Emocional na pratica (que será lançado em breve,  juntamente com o curso online). Atualmente divido meu tempo entre a sala de aula e o consultório, onde atendo adolescentes, adultos e idosos. Meu propósito é conectar principalmente os adolescentes consigo mesmos e ajudar as famílias à construir pontes de maneira respeitosa e amorosa entre pais e filhos, através dos conhecimentos da Inteligência Emocional, da Disciplina Positiva e da Comunicação Não violenta.

Artigo 1

Como conectar pais e filhos adolescentes

Quem convive ou já conviveu intensamente com adolescentes sabe que eles são uma caixinha de surpresas. Uma hora estão envolvidos com projetos audaciosos, outra trancados no quarto sentindo que o mundo acabou, e por fim mega felizes com um convite inesperado. 

Esse turbilhão de emoções e comportamentos inquietam os adultos a sua volta, que muitas das vezes não sabem como lidar ou compreender seus filhos, sobrinhos e alunos. Os próprios adolescentes se sentem perdidos nessa fase de grandes transformações físicas e psicológicas.

De aborrescência para adolescência

Para se conectar com os adolescentes, o primeiro desafio é uma mudança de olhar. É comum nos referirmos aos adolescentes como “aborrescentes”, e à adolescência como “aborrescência”. Além de não ser uma forma gentil e respeitosa de compreender essa fase de mudanças e potencialidades, esses termos nos afastam dos adolescentes.

O segundo é considerar o significado que cada adolescente dá a essa experiência. Meninos e meninas perdem um corpo infantil, um lugar social e familiar conhecido e são convidados/convocados à construir um novo espaço, um novo EU.  Como diz Nando Reis, “já não encho mais a casa de alegria, (…) no espelho essa cara já não é minha”.  A identidade infantil, muitas vezes protegida e admirada em suas conquistas é substituída por um espaço desconhecido: um não lugar. Os adolescentes se veem no meio do caminho, não são mais crianças mas também ainda não são adultos.

O corpo é o primeiro a manifestar as mudanças dessa fase, que são vistas num misto de curiosidade e espanto. O psiquismo, ainda infantil, não consegue dar conta de tantas alterações físicas. Diante desse estranhamento, muitos tentam controlar o incontrolável. Roupas largas, moletons mesmo nos dias quentes, excesso ou perda de peso (obesidade/anorexia), descuido do banho e da aparência, podem ser algumas estratégias para esconder um corpo em constante transformação.

Quem sou eu? Desafio da adolescência

A principal tarefa da adolescência é responder a questão: quem sou eu? Ou seja, a busca pela identidade. Esse processo é chamado de individuação. Nesse processo, é comum (e necessário), os adolescentes se separarem dos pais ou responsáveis, questionarem sua autoridade e os valores familiares e sociais. Os amigos se tornam mais importantes que a família, através deles se descobrem mundo, outros valores e formas de validação dessa identidade. 

Os adolescentes buscam um adulto para ancorar suas dúvidas. E essa é uma fase cheia de dúvidas e incertezas, não é mesmo? Quando um adulto, os ouve de maneira genuína e acolhedora e demonstra seu interesse, contribui significativamente na construção de suas habilidades socioemocionais. Porém, se os adolescentes não encontram relações interpessoais que favoreçam a ampliação das suas vivências emocionais, eles tendem a se fechar em si mesmo. Em alguns casos, essa desconfiança gera um estado de angústia, de não pertencimento, que pode se encaminhar para quadros de isolamento social e depressão que carecem de cuidados médicos e psicológicos.

O papel dos pais na adolescência dos filhos

Então, como nós, pais ou responsáveis, professores e outros profissionais podemos colaboram nesse período de descoberta e conflitos? Qual o nosso papel nessa transição, nessa adolescência? Como se pode perceber, essa é uma fase de descoberta para pais e filhos adolescentes, onde se faz necessário construir pontes ao invés de grades.

O primeiro passo é relembrar que o adolescente não nasce adolescente. Ele ESTÁ adolescendo. Por isso, aposte na relação que vocês construíram anteriormente. Se ela teve alguns ruídos e falhas na comunicação, sempre é um bom momento para investir em relações mais saudáveis e assertivas. A Disciplina Positiva e a Inteligência Emocional podem ser poderosas aliadas nesse percurso.

As emoções na adolescência

Na adolescência, as emoções são sentidas e manifestadas de forma intensa. Como há uma dificuldade de traduzir em linguagem e por um processo de maturação cerebral em construção, as emoções são vivenciadas ao mesmo tempo: raiva, tristeza, alegria, frustração, medo, insegurança.

A Inteligência Emocional se relaciona a capacidade de perceber, compreender e gerir as emoções. Assim, nesse processo de construção de pontes, os adultos podem ajudar os adolescentes, ressignificar sua experiência de adolescer através da compreensão e gestão das suas emoções.

Através de um diálogo aberto e honesto, converse com seu filho sobre as emoções que o invadem no cotidiano. Fale também dos seus sentimentos. O objetivo é a troca de experiências e não uma função pedagógica de ensiná-los como devem agir, afinal seu filho (a) precisa percorrer seu caminho com seus próprios sapatos.

A Disciplina Positiva e a Adolescência

Já a Disciplina Positiva é o caminho do meio entre o autoritarismo e a permissividade no processo de educação baseado no afeto, empatia e firmeza.  É um trabalho constante de acertar nas doses de disciplina e generosidade, mas os excessos de controle ou permissividade podem significar desamor e desatenção.

Muitos adolescentes temem perder o amor de seus pais, pois sentem que não são mais os queridinhos (as) da família. O diálogo é uma forma de reconexão, de pertencimento.

Ao se sentir compreendido, o adolescente tende a “baixar a guarda”, possibilitando o acesso aquelas emoções escondidas e traduzidas em atos de rebeldia ou comportamentos desafiadores. Por baixo dessa ponta de iceberg ficam guardadas frustrações, medo, ciúmes, decepções, mágoas….

Algumas atitudes da Disciplina Positiva que auxiliam a conexão entre pais e filhos:

  • Demonstre seu amor incondicionalmente.
  • Certifique-se que sua mensagem de amor foi compreendida.
  • Ofereça ajuda ao invés de ditar apenas regras.
  • Envolva o adolescente na resolução de problemas.
  • Encoraje seu filho a viver, acreditar nas suas potencialidades. Isso reforça a autoestima e autoconfiança.
  • Em vez de julgar, fale dos seus sentimentos.
  • Crie momentos especiais com seu filho (a).

Pais e familiares: vocês não estão sozinhos!

Pais não se sintam sobrecarregados nessa tarefa de educar e conviver com seu adolescente! Veja como oportunidade de autoconhecimento e autorrealização. Procure ajuda, leia, se informe, procure outros pais, amigos e profissionais da sua confiança. Educar um adolescente não é tarefa fácil! Mas você não está sozinho! Podem ser uma oportunidade para você também florescer junto com esse ser em constante transformação que é seu filho adolescente!

E acredite: as floradas que vocês verão valerá todas as fases do crescimento!

Nívia Tironi Pinto

CRP 04/36611